A cultura indiana é uma cultura milenar rica
em filosofias. É impossível entender o hinduísmo em sua totalidade, devido às suas
variações e contradições. Podemos dizer que o hinduísmo é uma procura por algo que
jamais poderá ser encontrado. Essa busca leva pessoas a tomarem posições extremas de
abnegação física, mental e principalmente espiritual.
Hinduísmo não é simplesmente uma religião, é um estilo de
vida diário onde todos os elementos que envolvem os rituais religiosos são importantes e
com um significado fundamental para a vida hindustani. Com a chegada dos arianos a Índia
houve uma mistura da cultura filosófica ariana com a cultura animista dos drávidas,
povos habitantes da Índia antes da invasão ariana. Os arianos trouxeram a filosofia e a
unificaram com o animismo praticado pelos drávidas. Essa é a razão da existência do
grande número de deuses no hinduísmo.
A filosofia hindu tem ultrapassado as fronteiras da Índia,
chegando a muitos países do mundo, alguns destes sendo totalmente dominados por essa
filosofia. Uma boa parte dos países asiáticos é predominantemente budista, no entanto,
Buda era hindu, e toda filosofia budista tem sua raiz no hinduísmo. No Ocidente o
hinduísmo tem atraído milhares de seguidores através do movimento Hare Krishna e da
Nova Era. Um dos maiores sucessos do hinduísmo no ocidente tem sido implementar
atividades religiosas como meros exercícios físicos e mentais. A yoga, principalmente,
tem encontrado muito espaço no Ocidente. A yoga já é praticada em escolas,
escritórios, etc., porém, yoga é hinduísmo. Não existe hinduísmo sem yoga e não
existe yoga sem hinduísmo.
O hinduísmo é um conglomerado de idéias, crenças,
convicções e práticas que variam de povo para povo e região para região. Para
facilitar nosso entendimento dividimos o hinduísmo em suas mais variadas formas:
* Hinduísmo Filosófico:
Esta forma de hinduísmo é dominada pela autoridade de
certas escrituras: Vedas e Upanishads. Neste hinduísmo existem três
escolas fundamentais: Advaita Não dualismo (o humano como divino); Dvaita
dualismo (o humano e o divino); Visishtadvaita dualismo modificado
(cada ser humano tem um lampejo da divindade).
* Hinduísmo Religioso:
Os adeptos desta forma de hinduísmo
crêem nas escrituras
épicas ou religiosas. Crêem na encarnação de deus e possuem um panteão de 330 milhões
de deuses. A salvação (moksha) é alcançado na prática das seguintes atividades: Gnamarga
conhecimento; Bhaktimarga devoção; Karmamarga boas
obras.
* Hinduísmo Popular:
Está longe do Bramanismo (Filosófico), eles são
influenciados pela tradição ancestral, pela adoração aos animais, pelas práticas
religiosas nos templos, pela magia e pelo exorcismo. São indiferentes à autoridade dos
Vedas.
* Hinduísmo Místico:
São gurus com misteriosas experiências pessoais que
atraem pessoas para si. Eles alegam possuírem poderes sobrenaturais para curar, ler
pensamentos e prever o futuro.
* Hinduísmo Tribal:
É influenciado pelo animismo, espiritismo, ocultismo,
necromancia e adoração de animais.
* Hinduísmo Secular:
São nominais e indiferentes às práticas religiosas.
Contexto Bíblico Para a Evangelização dos Hindus
Jesus Cristo em sua humanidade era asiático, e viveu
dentro de um contexto asiático, o que o torna aceitável pelos povos da Ásia. É
possível para os asiáticos entenderem a Jesus Cristo perfeitamente, quando Cristo é
apresentado sem a capa de um Cristo ocidentalizado.
Devemos analisar o hinduísmo à luz da Bíblia e identificar
pontos que merecem a nossa consideração cuidadosa. Existem alguns pontos que influenciam
na evangelização dos hindus, entre eles estão:
* Espiritualidade: Os hindus são pessoas espirituais. Quando um
homem afirma sua santidade, é como se uma áurea de santidade existisse sobre a vida
deste homem. Uma vida de santidade pode ser muito importante para influenciar a vida dos
hindus. (1 Pe 1:16; Romanos 12:1-2; Mateus 5:16)
* Comunidade: Na sociedade indiana a igualdade dos homens
perante Deus não é demonstrada na comunidade. Portanto, se a igreja viver de forma a
desenvolver a igualdade e o cuidado de amor uns pelos outros, um amor genuíno e não
apenas verbal, isso será de grande importância na sociedade indiana. (Jo. 13:35; Tg
2:4,26)
* Pobreza: A dura realidade da Índia é a pobreza. Se
apresentarmos a Cristo como alguém que foi identificado com o pobre isso os ajudará a
recebê-lo. Esta verdade tem um forte significado para o hindu. (2 Co. 8:9; Fl. 2:7; Pv.
14:31)
Obstáculos Teológicos
* Sincretismo: Os hindus são sincretistas, acreditam que todas
as religiões levam à Deus. Eles não aceitam a idéia de mudar de religião, pois isso
para eles é algo desnecessário.
* Pecado: Para alguns é fazer algo ruim, para outros é uma
desobediência a própria consciência, outros ainda vêem como egoísmo. Mas a maioria
acredita que pecado não existe.
* Karma: A pessoa colhe aquilo que semeia. O comportamento no
passado determinou a atual condição de vida do indivíduo e as obras do presente
determinarão o futuro. As reencarnações acontecem até que a pessoa seja totalmente
purificada, alcançando assim o moksha (salvação).
* Salvação: Eles entendem que salvação é a libertação do
ciclo de reencarnações.
Pontes Teológicas
É bom que fique claro que nenhum conceito do hinduísmo
pode ser aceito dentro do cristianismo sem mudanças fundamentais. O propósito deste
tópico é mostrar que há pontes teológicas que facilitam a nossa comunicação com os
hindus. Seguem alguns conceitos, entre os quais alguns exigem alguma mudança:
* Conceito de Deus: Os hindus tem uma cosmo-visão panteísta,
será necessário redefinir alguns pontos relacionados ao panteísmo mas não será
necessário defender a existência de Deus.
* Respeito pelas Escrituras: Os hindus aceitam a autoridade da
Bíblia, porém, a autoridade única da Bíblia deve ser enfatizada sem qualquer
transigência.
* A pessoa de Jesus Cristo: A qualidade do relacionamento de
Cristo com as pessoas, seus ensinos, sua entrega e sofrimento vicário e singulares tem um
forte apelo à consciência hindu.
* A doutrina do Karma: Visto que o hindu busca libertação
através do ciclo de renascimento provocado pelo seu karma, ele precisa ouvir falar da
salvação através de Jesus Cristo.
* Espiritualidade: Os hindus possuem um profundo desejo por uma
experiência espiritual. A ênfase sobre a meditação, austeridade e a disposição de
aceitar o sofrimento físico são aspectos louváveis para os hindus. Ao comunicar o
evangelho, devemos destacar a liberdade que existe na adoração cristã, bem como o fato
de que a espiritualidade não é um fim em si mesmo, e também não é por simples
exercícios espirituais que a pessoa herda o reino de Deus. No hinduísmo salvação é
sempre adquirida pelo esforço humano, no cristianismo salvação é pela fé em Cristo
Jesus.
* Encarnação: Devemos redefinir radicalmente este conceito. A
encarnação de Jesus Cristo é a única, histórica, suficiente para todas as épocas e
está baseada no amor de Deus para salvar os pecadores.
Obstáculos à Evangelização
* Assuntos Sócio-culturais: A cultura ocidental foi inserida na
cultura indiana como sendo uma forma aceitável de cristianismo. Abaixo seguem alguns dos
obstáculos sócio-culturais:
> Hábitos alimentares cristãos (carne vermelha, porco e bebidas alcoólicas).
> Modo cristão de adoração (liturgia importada do ocidente e longe da
realidade indiana).
> Aproximação demasiada entre meninos e meninas cristãos.
> Prática dos cristãos de proibirem o uso de um ponto vermelho na testa das
mulheres (o ponto vermelho significa que a mulher é casada).
> Aparência de uma religião estrangeira.
> Cristianismo como uma ameaça cultural.
> Cristão indiano não é patriota.
> Idéia errada de pregar somente para os de casta baixa.
> Quebra do sistema de castas.
> Superstição quanto a ira de Kula Devata (punição por mudar de religião).
* Assuntos Econômicos:
> Temor da perda de prosperidade garantida pelos deuses hindus.
> Temor da perda de privilégios garantida na comunidade hindu.
> Idéia errada de que cristianismo é religião dos pobres.
* Assuntos Metodológicos:
> Necessidade de uma teologia em categorias indianas.
> Cosmo-visão dentro do contexto indiano.
> Estar consciente das diferenças entre o cristianismo, no que diz respeito a
doutrina de Deus, do homem, do pecado e da salvação.
> Cristo e a Fé dos Outros
Devemos recordar de que Jesus se levantou
no meio da cultura grega predominante de sua época e fez a seguinte declaração:
"Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por
mim."(Jo. 14:6). O que Jesus estava fazendo ao declarar tal coisa? Ele estava
entrando no coração da cultura e religião grega predominante e mostrando que a própria
religião grega apontava para Ele como o Cristo e o Salvador da humanidade.
Os gregos diziam que a vida era composta de três elementos
importantes: o bom, a verdade e o bonito. Jesus contextualizou sua mensagem de forma a
torná-la compreensível aos gregos. O bom para os gregos era a forma de agir com o
objetivo de alcançar benefícios dos deuses, porém, Jesus aponta para si mesmo e diz:
EU SOU O CAMINHO. Com esta declaração de Cristo era possível aos gregos entenderem
que somente através de Cristo conseguiremos os favores divinos. Cristo também disse que
Ele era a VERDADE ABSOLUTA que os gregos consideravam tão importante. O bonito, segundo a
cultura grega, era a vida em toda sua plenitude, e mais um vez Jesus alcança o coração
dos gregos com sua declaração de que Ele era a VIDA tão valorizada por eles.
A semelhança dos gregos, os hindus dizem que há três elementos
importantes na vida: Gyana Marga (caminho do conhecimento); Bhakti Marga
(caminho da devoção e emoção); Karma Marga (caminho do trabalho e boas obras).
A declaração de Jesus em João 14:6, à semelhança dos gregos,
penetra dentro do coração do hinduísmo esclarecendo o real significado do que eles
chamam de elementos importantes na vida. Os hindus dizem que o caminho da salvação só
pode ser alcançado através do Karma Marga (caminho do trabalho e boas obras), porém,
Jesus se levanta no meio da cultura hindu e se declara o CAMINHO para a
salvação eterna, pois a salvação é pela fé em Cristo para que ninguém se glorie
(Ef. 2:8-9). Para os hindus em Bhakti Marga (caminho da devoção e emoção) está
contida a vida, pois o hinduísmo não é uma religião e sim um estilo de vida cheio de
devoção e emoções, Jesus diz aos hindus EU SOU A VIDA. Cristo não é
religiosidade, Cristo é a Vida que tanto buscamos. Mais uma vez Ele diz aos hindus EU
SOU A VERDADE, o real conhecimento que vocês tanto buscam através de Gyana
Marga (caminho do conhecimento).
A mensagem de Cristo foi, ainda é e para sempre será uma
mensagem relevante para qualquer cultura e nação. O que precisamos fazer é anunciar o
Cristo bíblico sem rótulos culturais. A mensagem do evangelho penetra no coração das
culturas e apela para a consciência humana.
Nossa dificuldade em anunciar Cristo está relacionada ao fato de
pregarmos um Cristo separado do cristianismo. Nosso Cristo é bíblico, mas muitas vezes
nosso cristianismo é americanizado ou abrasileirado, rotulado culturalmente. Devemos
entender que Cristianismo e Cristo são a mesma coisa. As nações somente aceitarão a
Cristo quando nosso cristianismo não for nada mais e nada menos que o próprio Cristo.
Existem verdades no hinduísmo. Elas são como a semente
encontrada na mão de uma múmia no Egito que foi sepultada há centenas de anos atrás.
Os cientistas plantaram essa semente e ela produziu flores lindas e desconhecidas. O
hinduísmo é como essa múmia com semente na mão. Algumas destas sementes são: A
última realidade da vida é o espírito e espiritual; um sentido de unidade funcionando
através das coisas, geradas pelo Absoluto; existe justiça no coração do universo;
existe uma paixão por liberdade no coração humano; existe um preço a ser pago para uma
vida religiosa. Tais sementes merecem nossa consideração.
Escrito
pelo Rev. Luis Alexandre Ribeiro Branco
(Missionário pela Igreja Batista Central de Petrópolis e JAMI – CBN,
servindo como pastor adjunto na North Sea Baptist Church na Noruega).
Referências:
* The Christ of the Indian Road By Stanley Jones
* Divine Harmony By Aravindaksha Menon
* The Spirit of Hinduism By David Burnett
* Hinduism By Swami Harshananda
* The Upanishads By Swami Prabhavananda
* The Rigveda
* The Bhagavath Gita
* Perpective of the World Christian Movement